Muitas famílias chegam até mim logo depois de ouvir uma palavra nova sobre o filho: TDAH, autismo, transtorno de ansiedade. Junto com a palavra vêm sentimentos misturados. Alívio, porque finalmente existe uma explicação. Medo, porque o futuro parece incerto. E uma pergunta que se repete: “e agora, o que eu faço com isso?”
Não existe uma resposta única. Mas existe um cuidado que faz muita diferença: lembrar que o diagnóstico descreve algumas características do seu filho, não quem ele é.
Em resumo: o diagnóstico de TDAH, autismo ou ansiedade é uma ferramenta para organizar o cuidado, não uma descrição de quem a criança é. Depois dele, vale observar em que situações ela funciona bem, onde estão as dificuldades e se há sofrimento emocional que pede psicoterapia, com a família e a escola participando.
O diagnóstico é uma ferramenta
Um diagnóstico bem feito é útil. Ele organiza o que estava confuso, ajuda a família a entender comportamentos que antes pareciam sem sentido e abre portas para os apoios adequados na escola e em outros espaços.
Ele também tira um peso de muitos pais. É comum ouvir: “eu achava que era culpa minha” ou “eu achava que ele estava fazendo de propósito”. Entender que existe um funcionamento diferente por trás de certas dificuldades costuma trazer mais paciência para todos.
Mas uma ferramenta serve para alguma coisa. O diagnóstico não é o ponto de chegada. É um ponto de partida para pensar em como cuidar daquela criança específica.
O risco de enxergar só a condição
Existe um risco silencioso depois de um diagnóstico: começar a ver tudo através dele. A criança fica agitada e logo se pensa “é o TDAH”. Ela se irrita e a explicação vem pronta: “é o autismo”. Aos poucos, ela deixa de ser vista como alguém que também sente cansaço, frustração, ciúme, alegria e medo, como qualquer criança.
Quando isso acontece, a própria criança pode começar a se enxergar dessa forma. Ela passa a se apresentar pela condição e a acreditar que certas coisas simplesmente não são para ela.
No meu trabalho, guiado pela Psicanálise, busco o caminho oposto: compreender a criança ou o adolescente para além do diagnóstico, preservando sua singularidade e mantendo-o como protagonista do próprio processo. Duas crianças com o mesmo diagnóstico podem ter histórias, interesses, forças e necessidades completamente diferentes.
Perguntas que ajudam depois do diagnóstico
Em vez de tentar entender tudo de uma vez, algumas perguntas ajudam a organizar os próximos passos:
- Em que situações o meu filho funciona bem, e o que essas situações têm em comum?
- Onde estão as maiores dificuldades hoje: na escola, em casa, nas amizades, nas emoções?
- O que ele mesmo diz sobre como se sente?
- Que apoios a escola pode oferecer, e como a família pode participar disso?
- Existe sofrimento emocional que merece um espaço de cuidado próprio?
Essas perguntas não têm resposta certa ou errada. Elas servem para trazer o foco de volta para a criança real, e não para a descrição genérica de uma condição.
Onde entra a psicoterapia
Depois de uma avaliação ou de um diagnóstico, o acompanhamento psicoterapêutico busca compreender as necessidades específicas do paciente e favorecer um trabalho individualizado. É um espaço de escuta e acolhimento em que a criança ou o adolescente pode expressar o que vive, com recursos adequados à idade.
A família participa desse processo por meio da orientação parental. E, quando necessário, estabeleço diálogo com a escola e com outros profissionais envolvidos no cuidado, como médicos, fonoaudiólogos e psicopedagogos, respeitando as atribuições de cada área.
Você pode conhecer melhor como funciona o acompanhamento, passo a passo, desde a primeira conversa com a família.
E se o diagnóstico ainda gera dúvidas?
Às vezes o diagnóstico chega rápido demais, sem que a família tenha entendido como se chegou a ele. Outras vezes ele não parece descrever bem o que vocês veem em casa. Essas dúvidas são legítimas.
Um diagnóstico não é definido por um único teste. Ele resulta da integração de dados, da história de desenvolvimento e das manifestações nos diferentes contextos de vida. A avaliação neuropsicológica pode ajudar a compreender de forma mais ampla o perfil cognitivo, emocional e comportamental da criança, trazendo mais clareza para as decisões.
Um passo de cada vez
Ninguém precisa ter todas as respostas no dia em que recebe um diagnóstico. O importante é não caminhar sozinho e não deixar que uma palavra ocupe o lugar de quem o seu filho é.
Se vocês estão vivendo esse momento e querem conversar sobre os próximos passos, fico à disposição. Basta me mandar uma mensagem e marcamos uma primeira conversa.
Aline Marchesan é psicóloga clínica e neuropsicóloga infantojuvenil (CRP 05/43767), formada pela PUC-Rio, com especialização em Psicologia Clínica com Crianças pela PUC-Rio e em Neuropsicologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Atende crianças, adolescentes e famílias na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e online.